Subsistir

Por: Pablo Mosqueira

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Sobrevivo. Em meio a uma realidade de dor, angústia e desprezo. Cercado por ódio, rancor, narcisismo e orgulho, me pergunto se estou mesmo no caminho certo.
Ninguém ama, ninguém sente, ninguém é humano mais. Demonstrar, cada vez mais se torna um ato de coragem e ousadia. E entender, já não faz parte mais da realidade.
Numa sociedade onde o descaso impera, o amor e os sentimentos bons estão a cada dia se dissipando, fragmentando, tornando-se passado.
Sobrevivo. Um tanto quanto perdido. De frente para dois caminhos, mas nenhum dos dois me parece ser o certo. Empurrado pela massa, pressionado a escolher um destino, sigo perdido procurando alguém que eu deveria ter me tornado.
Sobrevivo. Com a sensação de que nunca vou me moldar a tal proceder. Ser pouco para parecer ser muito. Esvaziar ao invés de encher. Diminuir ao invés de somar.
E nessa disputa egoísta de quem sente menos, sobrevivo.
 

 

 

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Eu Quero um Amor dos Anos 50

Por: Pablo Mosqueira

 

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Passeio no parque, dedos entrelaçados, beijo na testa, e por aí vai…
poderia ficar a noite inteira citando situações que foram intensamente vividas
naquela época e que nos dias de hoje, é raríssimo de se ver.

A cada dia que passa, eu quero mais e mais um amor dos anos 50. Não o amor
sentimento, mas o amor vivência. Aquele amor abstrato, recôndito e de uma maneira
única, jovial.
Um amor que pra Aristóteles é ”Philia”, ou ”Alegria”. Este que se renova, se alteia, com cada ”eu te amo” dito liricamente e que se torna mais vigoroso à cada manhã.
E por falar nelas, como são belas quando estão acompanhadas de um carinho na testa e um café bem quentinho… Daqueles que vem na xícara de porcelana, feito num bule antigo e simples, mas que por algum motivo faz dele único e incrivelmente gostoso!

Eu quero um amor dos anos 50
Um amor onde o orgulho não tem vez. Onde se amava sem medo, sem imparcialidade. Onde era construído um laço regado por empatia, respeito e muita devoção.

Ah como eu quero um amor dos anos 50… um amor  atemporal, ímpar, e forjado a companheirismo e compaixão.

Puta

Por: Pablo Mosqueira

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Não fica com ela, ela é puta
ela usa saia curta com blusa decotada
e se esbalda nas festas
sem nem um pingo de medo de ser feliz
Não fica com ela, ela é puta
ela transa com quem quiser
beija quem quiser
e não tá nem aí pro que pensam
ou deixam de pensar dela
Não fica com ela, ela é puta
ela é dona de si mesma
não tem papas na língua
e fica mais forte a cada manifestação
de superioridade alheia
Não fica com ela, ela é puta
ela desce até o chão
bate forte o tamborzão
e ai do cara que gritar
“nossa em colega, que avião!”
Não fica com ela, ela é puta
ela ri pra todo mundo
gosta de experiências novas
tem uma energia contagiante
e ela correu
bebeu
conheceu
gemeu
e mano,
você perdeu.

Ela

Por: Pablo Mosqueira

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Ela não é sua
Ela é do mar, dos peixes,
do balanço das águas
da sutileza da maré
e da leveza de cada mergulhar

Ela não é sua!
Ela é do sol
que brilha sob seus cabelos
e ilumina sua alma
mostrando tudo o que ela tem de melhor

Ela não é sua!
Ela é da noite
que ofusca a opressão no seu batom
e clareia toda a sua pose e poder no seu salto alto

Ela não é sua!
Ela é da liberdade
da voz ativa
da mão calejada
e das gargantas que sangram
urrando por voz!

Ela não é sua!
Ela é do campo
ela é da rua
ela é a bela da favela

Ela não é sua!
Ela é dela
donzela
magrela
e não sua da costela!

Ei, fica na tua!
Ela não é sua!

Voz Ativa

Por: Pablo Mosqueira

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Ei, nego, vem cá
O senhor pode me explicar
Como a gente se perdeu
e não vivemos mais o verbo amar?

Eu não sei
É tanta divergência
Com muita prepotência
Que se fechou o caminho
Para a consciência
Petrificados em um passado
Violento e antigo
Eles cerca nóis
Vestidos em paletós
Sabem que estamos sós
E sem sequer uma meia voz
Ei mãe, não chora não
A nossa zanga vai ser eterna
A minha cor é meu escudo
A minha luta me impede de ficar mudo
Mãe, cansei de viver numa caverna
Tá na hora de cuspir essa entala
De assoprar essa fumaça que nóis inala
De bater o pé no chão e gritar
Que essa terra também é nossa
E de mostrar que os preto
Não quer mais ser analogado
A vagabundagem, pobreza e senzala.

Silhueta

Por: Pablo Mosqueira

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Ei ei, olha só quem vem lá
É ela? Não, não pode ser
Ah nego, aquele sorriso não me engana, é ela!

Dona de uma áurea transcendente, ela vem a cada passo mostrando que sabe o que faz
A luz do sol reflete o brilho dos seus cachos,
Ofuscando assim qualquer coisa que à venha derruba-la.
Ah ela é linda!
A linha tênue entre céu e inferno
Bem e mal
Terra e mar
Caetano e Nirvana.

Sem reação, a observo vindo em minha direção.
A vontade não é outra além de admirar e tentar entender cada expressão de seu corpo.
Subitamente
Um beijo
Um abraço
Dedos entrelaçados
Pupilas dilatadas

Ela me faz enxergar o bem rebuçado em mim
O lado poético das perdas
A parte melódica do silencio

Ah, nego, ela é demais!

Vitória

Por: Pablo Mosqueira

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Eu não sei como explicar. Todo sofrimento, toda luta, toda dor, de algum modo valeram a pena.

Eu cresci sendo negativado por vários. Desacreditaram de mim, me chutaram, e o que eu fiz? Me mantive de pé.

Talvez esse poderia ser um tiro no peito dos que fizeram de tudo para me ver aos prantos, mas a vida continuou colocando obstáculos no meu caminho. Desistir? Não, não garoto, essa palavra sequer passava na minha cabeça. Eu levaria o tempo que fosse preciso para chegar ao topo, e daria minha ultima gota de suor para que aquele sonho se tornasse realidade.

Anos se passaram, pessoas se foram, me tiraram tudo o que tinha, eu estava sozinho. Mas eu sabia, sabia que não estava distante, e continuei. Trilhei meu caminho árduo por décadas até o grande momento vir.

Eu estava tremendo, suando, e expelindo lagrimas de felicidade, orgulho e alivio. O grande dia havia chegado! No topo estava aquele rapaz que todos desacreditaram, humilharam e riram. Provei a mim mesmo que eu era capaz, e aos outros que eles estavam errados.

Por isso, garoto, não desista. Tudo valerá a pena quando você estiver no topo do pódio.

Chego a chorar, manso de tristeza. Depois levanto e de novo recomeço.

Clarice Lispector