Você sumiu

Por: Pablo Mosqueira

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Eu não sei o porque, não sei pra onde, só sei que se foi.
Você como um vento forte que abala as estruturas de uma
frágil cabana, assoprou. Destruiu. E levou tudo de melhor consigo.
Um vento quente e contínuo, estranho, vento esse que nunca senti antes.
Sobretudo, por minha cabana não ser um lugar de ventos. Quem dirá ventos fortes.
Você sumiu.
Talvez assustada com as turbulentas vozes do meu cotidiano. Eu sei, é intimidante
explorar novos universos. Mas você sequer mergulhou nele. Sou algo mais do que mais um desastre.
Você sumiu.
Desnutrindo-me de esperança, expectativas e possibilidades. Talvez não propositalmente, talvez sim.
Você sumiu.
Eu não entendo.
Na minha cabeça estava tudo bem.

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Subsistir

Por: Pablo Mosqueira

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Sobrevivo. Em meio a uma realidade de dor, angústia e desprezo. Cercado por ódio, rancor, narcisismo e orgulho, me pergunto se estou mesmo no caminho certo.
Ninguém ama, ninguém sente, ninguém é humano mais. Demonstrar, cada vez mais se torna um ato de coragem e ousadia. E entender, já não faz parte mais da realidade.
Numa sociedade onde o descaso impera, o amor e os sentimentos bons estão a cada dia se dissipando, fragmentando, tornando-se passado.
Sobrevivo. Um tanto quanto perdido. De frente para dois caminhos, mas nenhum dos dois me parece ser o certo. Empurrado pela massa, pressionado a escolher um destino, sigo perdido procurando alguém que eu deveria ter me tornado.
Sobrevivo. Com a sensação de que nunca vou me moldar a tal proceder. Ser pouco para parecer ser muito. Esvaziar ao invés de encher. Diminuir ao invés de somar.
E nessa disputa egoísta de quem sente menos, sobrevivo.
 

 

 

Eu Quero um Amor dos Anos 50

Por: Pablo Mosqueira

 

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Passeio no parque, dedos entrelaçados, beijo na testa, e por aí vai…
poderia ficar a noite inteira citando situações que foram intensamente vividas
naquela época e que nos dias de hoje, é raríssimo de se ver.

A cada dia que passa, eu quero mais e mais um amor dos anos 50. Não o amor
sentimento, mas o amor vivência. Aquele amor abstrato, recôndito e de uma maneira
única, jovial.
Um amor que pra Aristóteles é ”Philia”, ou ”Alegria”. Este que se renova, se alteia, com cada ”eu te amo” dito liricamente e que se torna mais vigoroso à cada manhã.
E por falar nelas, como são belas quando estão acompanhadas de um carinho na testa e um café bem quentinho… Daqueles que vem na xícara de porcelana, feito num bule antigo e simples, mas que por algum motivo faz dele único e incrivelmente gostoso!

Eu quero um amor dos anos 50
Um amor onde o orgulho não tem vez. Onde se amava sem medo, sem imparcialidade. Onde era construído um laço regado por empatia, respeito e muita devoção.

Ah como eu quero um amor dos anos 50… um amor  atemporal, ímpar, e forjado a companheirismo e compaixão.

Puta

Por: Pablo Mosqueira

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Não fica com ela, ela é puta
ela usa saia curta com blusa decotada
e se esbalda nas festas
sem nem um pingo de medo de ser feliz
Não fica com ela, ela é puta
ela transa com quem quiser
beija quem quiser
e não tá nem aí pro que pensam
ou deixam de pensar dela
Não fica com ela, ela é puta
ela é dona de si mesma
não tem papas na língua
e fica mais forte a cada manifestação
de superioridade alheia
Não fica com ela, ela é puta
ela desce até o chão
bate forte o tamborzão
e ai do cara que gritar
“nossa em colega, que avião!”
Não fica com ela, ela é puta
ela ri pra todo mundo
gosta de experiências novas
tem uma energia contagiante
e ela correu
bebeu
conheceu
gemeu
e mano,
você perdeu.

Ela

Por: Pablo Mosqueira

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Ela não é sua
Ela é do mar, dos peixes,
do balanço das águas
da sutileza da maré
e da leveza de cada mergulhar

Ela não é sua!
Ela é do sol
que brilha sob seus cabelos
e ilumina sua alma
mostrando tudo o que ela tem de melhor

Ela não é sua!
Ela é da noite
que ofusca a opressão no seu batom
e clareia toda a sua pose e poder no seu salto alto

Ela não é sua!
Ela é da liberdade
da voz ativa
da mão calejada
e das gargantas que sangram
urrando por voz!

Ela não é sua!
Ela é do campo
ela é da rua
ela é a bela da favela

Ela não é sua!
Ela é dela
donzela
magrela
e não sua da costela!

Ei, fica na tua!
Ela não é sua!

Voz Ativa

Por: Pablo Mosqueira

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Ei, nego, vem cá
O senhor pode me explicar
Como a gente se perdeu
e não vivemos mais o verbo amar?

Eu não sei
É tanta divergência
Com muita prepotência
Que se fechou o caminho
Para a consciência
Petrificados em um passado
Violento e antigo
Eles cerca nóis
Vestidos em paletós
Sabem que estamos sós
E sem sequer uma meia voz
Ei mãe, não chora não
A nossa zanga vai ser eterna
A minha cor é meu escudo
A minha luta me impede de ficar mudo
Mãe, cansei de viver numa caverna
Tá na hora de cuspir essa entala
De assoprar essa fumaça que nóis inala
De bater o pé no chão e gritar
Que essa terra também é nossa
E de mostrar que os preto
Não quer mais ser analogado
A vagabundagem, pobreza e senzala.

Silhueta

Por: Pablo Mosqueira

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Ei ei, olha só quem vem lá
É ela? Não, não pode ser
Ah nego, aquele sorriso não me engana, é ela!

Dona de uma áurea transcendente, ela vem a cada passo mostrando que sabe o que faz
A luz do sol reflete o brilho dos seus cachos,
Ofuscando assim qualquer coisa que à venha derruba-la.
Ah ela é linda!
A linha tênue entre céu e inferno
Bem e mal
Terra e mar
Caetano e Nirvana.

Sem reação, a observo vindo em minha direção.
A vontade não é outra além de admirar e tentar entender cada expressão de seu corpo.
Subitamente
Um beijo
Um abraço
Dedos entrelaçados
Pupilas dilatadas

Ela me faz enxergar o bem rebuçado em mim
O lado poético das perdas
A parte melódica do silencio

Ah, nego, ela é demais!